Meu primeiro intercâmbio: trinta dias longe do meu filho

December 12, 2019

 

Minha experiência aconteceu em 2007, quando tive a oportunidade de visitar alguns países da Europa (Espanha, Inglaterra, Holanda, França e Bélgica). Por ser professora de inglês, fui convidada a levar um grupo de alunos para um programa de intercâmbio com duração de um mês. Seriam 20 dias em casas de famílias na Inglaterra e 10 dias num breve tour pelos países da Europa.

 

Eu e meu grupo estávamos com uma agência de viagem que nos levou para conhecer lugares famosos como o Big Ben, o Palácio de Buckinhgan, o Museu Madame Tussauds, a Torre Eiffel, o museu do Louvre e muitos outros lugares.

 

Seria minha primeira viagem ao exterior e, a princípio, uma experiência extremamente positiva, se não fosse pelo fato de ser casada e ter um filho de apenas 6 anos de idade, de quem teria que ficar longe por 30 dias. Apesar de ser por pouco tempo, o fato de não poder levá-lo era a parte mais difícil pra mim. Então, planejei tudo passo a passo para amenizar a saudade, já que na época não podíamos fazer chamada de vídeo pela internet. Pra falar a verdade, quando cheguei em Salisburry, uma pequena cidade da Inglaterra em que ficamos, descobri que havia uma única lan house com apenas três computadores e que o sinal da Internet não era lá essas coisas.

 

O plano para amenizar a saudade era: escrevi 30 bilhetes, em papéis coloridos, um diferente para cada dia, contendo recadinhos carinhosos e uma pequena surpresinha, às vezes um brinquedinho, às vezes uma bala, outras, um pirulito para o meu filho. A pessoa que estivesse com ele na hora em que ele acordasse (minha mãe ou meu marido) ficava responsável por abrir a caixa e ler o bilhetinho com uma mensagem carinhosa de bom dia, dizendo em quantos dias eu estaria de volta com um monte de surpresas legais para ele. Isso ajudou muito, a mim e ao meu filho. Me confortava saber que ele estava ciente de que, mesmo longe, eu pensava nele e que em breve nos veríamos de novo para compartilhar muitas experiências legais, ver muitas fotos, abrir presentes e matar a saudade.

 

A história da caixinha de surpresas foi sugerida por uma terapeuta, já que na época eu vivia o que muitas mulheres experimentam quando têm filhos pequenos: os desafios de conciliar trabalho, profissão, estudos e projetos pessoais. Eu fazia terapia já há um tempo antes da viagem, uma vez que a conciliação dessas questões começou a causar algum incômodo e ansiedade. A terapia foi, portanto, um suporte naquela época.

 

Mas, continuando... 

O que mais pesava era a saudade do meu pequeno, e eu ligava todos os dias para ele, a voz sempre embargada pelo nó na garganta. Eu disfarçava  e não  deixava ele perceber que estava prestes a chorar. Como na casa em que eu fiquei não havia computador, combinei um dia com antecedência de ir para a lan house da cidade. Lá eu usaria uma webcam para falar com ele e matar a saudade. Já eram quase 20 dias sem vê-lo. Eu fui para lan house, me assentei na frente da câmera do computador, e... bem, a câmera não funcionou, apenas o microfone. A gente se ouvia, mas não se via. Tentei por várias vezes, pedi ajuda a dois funcionários do lugar, que me deram sugestões de reiniciar, ligar e desligar a câmera, mas que não fizeram nada de efetivo para ajudar. Enfim, não consegui vê-lo na tela, como eu tanto queria, tinha apenas quinze minutos para tentar e não consegui. Chorei bastante na frente do computador, mas permaneci falando com ele.  Ele percebeu minha aflição e perguntou se eu estava chorando, na mesma hora eu disse que não, disse que estava resfriada. Esse dia foi bastante frustrante e de longe só pensava na carinha dele lá, esperando para me ver e no desapontamento de nós dois.

 

 

Na viagem, tudo me remetia a ele, os castelos que visitamos, os parques, museus naturais com aqueles animais e planetários, tudo me fazia pensar no quanto ele ficaria encantado. Num desses passeios, visitamos a Euro Disney e lá tudo parecia um sonho, um mundo encantado, bem daquele jeito que se vê na televisão. Muitos personagens infantis que eu tinha certeza que ele amaria conhecer. A minha viagem parecia incompleta sem ele.

 

Mas, ainda assim, digo que vale a pena.

Vivi emoções, enfrentei alguns medos básicos, como andar de avião pela primeira vez e por tantas horas de voo, depois várias pontes aéreas e, toda vez, um frio na barriga. Fazer travessias de balsa entre os países e debaixo de tempestades. Mas, também, vivi coisas engraçadas, como quando tive um acesso de riso em uma loja e precisei sair por 20 minutos para só então retornar e comprar. Ou quando meu anfitrião me pediu que ensinasse a ele um palavrão em português e, depois que aprendeu, repetia o palavrão inúmeras vezes quando eu menos esperava.

 

De modo geral, a excursão foi muito legal. Mas, é claro que, com um grupo de adolescentes, por mais que nos organizássemos, muitas surpresas poderiam acontecer. Por exemplo, todos do grupo eram menores de idade, com exceção de um aluno, que tinha acabado de completar 18 anos. Então, uma vez, quando estávamos em um hotel em Amsterdam, durante a noite, quando todos nós dormíamos, os alunos pediram que esse aluno, o único maior de idade, fosse ao bar do hotel e comprasse bebida para o grupo. Assim eles fizeram e pela manhã, quando acordamos bem cedo para um passeio pela cidade, menos da metade do grupo estava de pé. O resto deles estava de ressaca e dormindo, foi muito difícil acordá-los, o que comprometeu toda a programação do dia, agendas em museus, horário de almoço e etc.

 

Houve, também, algumas ocasiões em que alguns ficavam com saudades de casa, muito tristes e até choravam. Estávamos lá para dar colo. Às vezes, se recusavam a falar inglês e não queriam ir a lugar nenhum, sozinhos, para não se arriscarem com o idioma. Então, víamos o quanto eles precisavam de suporte e o quanto nossa presença ali excedia o papel de professoras acompanhantes. Éramos uma referência de segurança e amparo.

 

Essa experiência me levou a pensar sobre o papel de mulheres que, como eu, preservam o sonho de ter filhos e família e ao mesmo tempo buscar por realizações profissionais e pessoais. Acredito que se a mesma oportunidade de ir para o exterior por 30 dias tivesse ocorrido para qualquer homem casado e com filhos, isso não seria tratado como um problema, menos ainda como um conflito. Então, por isso mesmo, não hesite, não compactue com a cultura machista que nos coloca tantos fardos desnecessários. 

Acontece ainda, que infelizmente, diante de uma oportunidade dessas ou até de um desejo de passar um tempo fora, a mulher se cobra  e se sente culpada por deixar para trás casa, marido e filhos. Mas, vejam, não sintam culpa por aproveitarem uma oportunidade ou uma chance que pode ser tão relevante, tanto a nível profissional, quanto pessoal. Não se cobrem. Realizem seus sonhos. Vale muito a pena. É o que todos dizem, mas é bem verdade, o tempo passa, filhos crescem e as oportunidades nem sempre aparecem mais de uma vez na vida.

 

Bom, finalmente, chegou o dia de voltarmos para casa e embora isso fosse o que a maioria de nós desejasse, estávamos todos tristes por nos despedirmos de nossos anfitriões, nossas ‘host families’, que nos acolheram por vinte dias em suas casas.

 

De volta para casa, foi uma alegria imensa rever meu filho, que me esperava todo animado e me recebeu com muitos abraços e beijos, cheio de saudades, assim como eu. A volta para casa reforçou em mim o quanto cada coisa tem o seu lugar, o quanto é maravilhoso estar perto das pessoas que amamos, como a família e o quanto é gratificante conciliar trabalho, sonhos e projetos. Isso parece simples e fácil de fazer, mas ainda é um desafio, principalmente para nós mulheres, já que ainda lutamos para termos o direito e a chance de viver tudo isso sem fardos e sem culpa.

 

 

Quer ouvir mais sobre essa experiência? Confira o novo episódio da série S3 Podcast para aprender inglês, disponível no Spotify. 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alessandra Daibert

professora de inglês

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