Um novo idioma: uma nova forma de estar no mundo

APRENDER UM NOVO IDIOMA significa estar no mundo de um novo jeito. O seu pensamento é diferente, a sua fala precisa se adaptar, a sua visão agora vem de outra perspectiva, o seu corpo se movimenta num novo ritmo.

Ainda na década passada, psicólogos da Universidade de Hong Kong publicaram estudos que confirmam: quando falamos uma nova língua, mudamos de personalidade.

Segundo pesquisa da University of Winsconsin-Milwaukee, que estudou um grupo de mulheres bilíngues, a maioria se identificou mais assertiva em espanhol. Inclusive, ao serem expostas às mesmas peças publicitárias em inglês e espanhol, enxergaram as personagens de maneira diferente de acordo com o idioma da versão da propaganda.


"Nas sessões (de estudo da pesquisa) no idioma espanhol os observadores verificaram que as participantes estavam mais autossuficientes e extrovertidas", disseram os pesquisadores.

Isso faz todo sentido, mais facilmente se pensarmos na nossa própria história de vida. Quando aprendemos o português, a nossa referência são os nossos parentes mais próximos, nossas primeiras amizades na creche, na escola e na vizinhança... Mas no segundo idioma as referências tendem a ser diferentes. Geralmente é uma professora que nos ensina, um cantor que ouvimos muito, atores e atrizes das nossas séries favoritas que assistimos com frequência. Ou seja, em resumo, quando desenvolvemos a nossa capacidade de falar português, estamos replicando vários exemplos das pessoas que nos estimulam com seus falares. E por isso aprender um novo idioma é como imitar um novo exemplo. Quanto mais rica essa referência for, mais nós aprendemos!


Por isso é tão importante, quando você escolhe aprender inglês, espanhol ou francês, por exemplo, ir além da sala de aula e do material didático que você usa durante a aula: ouça música, acompanhe o noticiário, assista filmes, maratone séries. É com esses hábitos que você percebe e pode assimilar não só vocabulário, mas também o ritmo da fala, a entonação e a intenção por trás de certas falas.

Essas pesquisas ainda trazem outra questão à tona: em momentos diferentes da vida temos interesses distintos, estamos mais (ou menos) envolvidos com determinadas atividades, nos relacionamos com certos grupos sociais, emitimos e recebemos estímulos de toda natureza. Nessa perspectiva, é possível entender porque você pode ter mais vocabulário para falar de seus sentimentos em português, mas para falar do seu trabalho talvez você se pegue usando termos em inglês a todo instante. Isso é resultado da frequência com que você usa o vocabulário de cada língua. Talvez isso aconteça quando você sente vontade de xingar. Também é comum nos sentirmos mais seguros ao conferir um valor em dinheiro contando na nossa língua materna.


E como o título dessa postagem diz, um novo idioma vai muito além de vocabulário, de estrutura de frases, gramática e pronúncia. Aprender uma nova língua é estar em contato com outras pessoas, que se expressam de maneiras únicas e que, assim, te enchem de estímulos distintos, muitos dos quais você provavelmente não recebe na sua língua materna, simplesmente pelo fato dela estar restrita à sua comunidade, à sua região, ao seu país. Quando se fala em inglês, por exemplo, trata-se de uma língua franca, ou seja, um meio de comunicação entre pessoas de todo o mundo, cujos idiomas nativos são diversos e é o inglês que permite essa conexão. À medida em que você encontra e interage com pessoas de outros origens, com outras histórias, você tem a chance de repensar e refletir sobre o seu papel no mundo. E isso acontece seja de forma mais ampla, em relação às suas ambições profissionais e possibilidades de realizações de grandes sonhos, seja mais estrita, na forma como você repensa seus julgamentos, preconceitos, como você enxerga outras culturas e como passa a tratar melhor as pessoas ao seu redor.

Aprender uma nova língua está diretamente ligado a se comunicar com o mundo, com mais pessoas, ler mais notícias, receber e emitir mais sinais. Isso, por si só, já representa uma expressiva mudança em quem você é.

Observe como a sua forma de se expressar em sua língua materna é semelhante à das pessoas que te rodeiam. Ao perceber isso, você abraça a ideia de repetir “igualzinho” o seu professor na hora da aula, cantar junto com a sua cantora favorita e decorar aquelas falas inesquecíveis da série que você está maratonando. Que tal? Ponha em prática essa técnica infalível da imitação dos modelos que te rodeiam e sinta como aprender uma nova língua se torna algo mais fácil. Pois é assim que a sua língua e os seus lábios desenvolverão a capacidade de se movimentar e produzir um novo som, o seu pulmão aprenderá a respirar num novo ritmo e a sua mente terá, finalmente, se tornado capaz de automatizar perguntas e respostas e efetuar a rica matemática do falar uma língua, com todas as operações de encaixe de vocabulário.


Vico Lopes

professor de inglês

e diretor pedagógico do Sistema 3

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